O termo “coronel de barranco” surgiu na região amazônica para denominar os donos de seringais. Em suas terras, eles mandavam, enquanto os empregados obedeciam ou eram severamente punidos.
Os anos passaram, mas o coronelismo de barranco permaneceu, principalmente no interior da região. Hoje, essa figura muitas vezes se personifica em agentes políticos que usam a estrutura pública para exercer controle sobre seus subordinados.
Em anos eleitorais, essa prática pode aparecer na forma de pressão sobre servidores públicos, especialmente os ocupantes de cargos comissionados, para que apoiem determinados candidatos sob o risco de perder o emprego.
É uma suspeita dessa natureza que o Ministério Público começou a investigar em Humaitá, no interior do Amazonas.

Denúncia cita pressão sobre servidores
O Ministério Público abriu, na quinta-feira, 27 de agosto, uma investigação contra o prefeito de Humaitá, Dedei Lobo, do União Brasil. Ele é suspeito de usar secretários e assessores para pressionar servidores municipais a apoiar a candidatura de seu irmão, Felipe Lobo, que disputa uma vaga de deputado estadual pelo MDB.
De acordo com a denúncia encaminhada ao Ministério Público, a suposta pressão atingiria principalmente servidores comissionados da área da saúde. Eles teriam sido orientados a colocar adesivos da campanha em seus veículos, publicar mensagens de apoio nas redes sociais e participar de eventos políticos com Felipe Lobo no município.
A representação apresentada ao órgão inclui capturas de tela, fotografias e documentos que, segundo os denunciantes, demonstrariam os supostos atos de coerção.

Caso foi enviado à Procuradoria Eleitoral
O procedimento está sob responsabilidade do promotor Wesley Machado, que também investigou denúncias semelhantes durante as eleições municipais de 2024.
Segundo o promotor, os documentos recebidos ainda não permitem confirmar a prática de abuso de poder político. Por isso, o caso foi encaminhado com urgência à Procuradoria Regional Eleitoral, que deverá analisar as provas e adotar as providências cabíveis.
Caso as denúncias sejam comprovadas pela Justiça Eleitoral, Dedei Lobo e Felipe Lobo poderão ficar inelegíveis por até oito anos. Se Felipe Lobo for eleito e posteriormente condenado, também poderá perder o mandato.
O velho coronelismo sob nova aparência
A investigação não significa que os envolvidos tenham cometido os atos denunciados. Essa conclusão dependerá da análise das provas e de uma eventual decisão da Justiça Eleitoral.
Mas o conteúdo da denúncia reacende uma discussão antiga no Amazonas: a permanência de práticas de coronelismo no interior do estado. Mudam os personagens, os métodos e os instrumentos de pressão, mas a lógica permanece a mesma quando a estrutura pública é supostamente usada para controlar servidores e favorecer projetos políticos familiares.