Eduardo Braga, engenheiro ou advogado? Eu sei que ele é engenheiro, mas ultimamente tenho achado que o senador anda parecendo um pouco advogado da Âmbar Energia. Você não tem achado também, não?
Em recente entrevista à jornalista Ane Margareth, Braga saiu em defesa da nova concessionária de energia do Amazonas.
Enquanto consumidores reclamam dos serviços prestados pela empresa e problemas relacionados ao fornecimento de energia chegam à Justiça, o senador apresenta outra interpretação para o que está acontecendo.
Segundo Braga, problemas como o superaquecimento da rede após a substituição de cabos de cobre por alumínio não poderiam ser simplesmente atribuídos à concessionária.
“A Âmbar mal molhou o bico, aí tá todo mundo jogando a culpa na Âmbar.”
Na avaliação do senador, o problema estaria relacionado principalmente ao aumento do consumo de energia e à necessidade de investimentos na infraestrutura da rede.
Braga argumenta que o consumo pode ter aumentado entre 20% e 25% e que a sobrecarga estaria atingindo subestações, transformadores e alimentadores.
E foi além: ao falar sobre a substituição dos cabos, afirmou que o alumínio seria até melhor que o cobre.
Alumínio é melhor que cobre?
Será mesmo?
Como eu não sou engenheiro elétrico — e muito menos advogado da Âmbar — fui pesquisar.
O alumínio possui condutividade elétrica inferior à do cobre. Isso não significa que ele não possa ser utilizado em redes elétricas. Pode. Mas, para transportar uma capacidade equivalente de corrente, normalmente é necessário considerar uma seção transversal maior e outras características técnicas do projeto.
Então a pergunta correta talvez não seja simplesmente se “alumínio é melhor ou pior”. A questão é: como essa substituição foi projetada e executada na rede de distribuição do Amazonas?
Se o material mudou, a concessionária deveria explicar tecnicamente quais especificações foram adotadas, quais trechos foram substituídos e se a nova configuração suporta adequadamente a carga exigida pela rede.
Por que trocar cobre por alumínio?
Existe ainda outra questão: por que substituir o cobre? Sem uma explicação técnica específica da Âmbar para cada intervenção realizada no Amazonas, não é correto afirmar qual foi a motivação da empresa.
Mas existe um fator econômico evidente nessa discussão.
O alumínio é significativamente mais barato que o cobre e sua utilização também já foi adotada em outros locais como alternativa para reduzir prejuízos provocados pelo furto de cabos, justamente porque possui menor valor comercial.
Uma reportagem da Band sobre o problema no Rio de Janeiro mostrou concessionárias substituindo cabos de cobre por alumínio como estratégia para diminuir a atratividade do material para criminosos.
E aí surge uma pergunta legítima para análise:
além das razões técnicas e de segurança, existe também economia para a concessionária?
É diferente de afirmar que a troca foi feita para aumentar o lucro. Sem documentos internos, projeto técnico ou manifestação da empresa comprovando essa finalidade, isso seria apenas uma hipótese.
Quem são os donos da Âmbar Energia?
É aqui que a discussão política fica ainda mais interessante.
A Âmbar Energia pertence à J&F, grupo controlado pelos irmãos Wesley e Joesley Batista. A J&F também controla a JBS.
E Eduardo Braga declarou possuir ações da JBS. Isso significa que Braga seja acionista da Âmbar? Não.
Também não significa, por si só, que sua posição sobre a concessionária seja determinada por esse investimento.
Mas existe uma relação econômica indireta que merece ser apresentada com precisão: JBS e Âmbar estão sob o mesmo grupo controlador, a J&F, enquanto Braga declarou participação acionária na JBS.
É nesse ponto que entra a pergunta desta análise.
Por que Braga defende tanto a Âmbar?
Eduardo Braga não é um parlamentar qualquer quando o assunto é energia. Ele é engenheiro e já comandou o Ministério de Minas e Energia. Portanto, conhece o setor elétrico e tem experiência para discutir tecnicamente os problemas da distribuição de energia no Amazonas.
Talvez seja justamente esse conhecimento que explique sua posição.
Mas, quando consumidores reclamam do aumento das contas e de problemas na rede, enquanto um senador com forte atuação no setor aparece publicamente relativizando a responsabilidade da concessionária, é natural que surjam questionamentos.

Ainda mais quando existe a conexão empresarial entre a companhia da qual o senador declarou possuir ações e o grupo controlador da concessionária.
Isso prova algum conflito de interesses? Não. Mas torna legítimo perguntar: por que Eduardo Braga tem defendido tanto a Âmbar Energia?
A resposta definitiva cabe ao próprio senador. E à Âmbar cabe explicar, com dados técnicos, o que está acontecendo com a rede elétrica do Amazonas.